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O “sucesso” logo de primeira… e nunca mais?

dezembro 14, 2009

Michael Cimino ainda jovem

Pode-se dizer que a perfeição venha com o tempo, através da experiência, recheada de erros que se transformem em futuros acertos. Pode ser… Aí então a chamada “obra-prima” vem realmente com o tempo. Quando chega, divide a vida do indivíduo entre o antes e o depois. O que se fez antes vai ser secundário e tudo que surgiu depois também. Toda uma trajetória vai ficar delineada por um “ponto” e o nome desse “ponto” vai ser o “nome” do indivíduo.

Por outro lado, existem carreiras relativamente regulares, que apresentam uma série de obras-primas. O que faz difícil a escolha do “melhor” trabalho. Ainda tem aqueles que têm uma carreira relativamente regular em termos de filmes modestos. Nesse caso, quase todos os filmes podem ser selecionados para ser “o melhor” (não a obra-prima!), poucos dão importância pela discussão sobre o “verdadeiro” melhor trabalho desse sicrano. Dessa forma, tanto faz. Tanto faz mesmo!

Agora, o que eu acho mais curioso ainda, são aquelas pessoas que logo na primeira tentativa produzem uma “obra-prima” e, mesmo continuado por anos no mesmo ramo, nunca consegue eclipsar o primeiro trabalho. Ou mesmo, começa a fazer, a partir do segundo trabalho, obras tão ruins e débeis que cai em esquecimento. Ninguém mais se lembra. Ai meu caro, é capaz de você encontrar essa pessoa naquelas seções de revista intulidas “onde se encontra beltrano?”, “o que anda fazendo fulano?”, ou mesmo, “você se lembra de sicrano?” (meu preferido!).

Ao analisar a obra de alguns dos melhores diretores de todos os tempos, podemos apresentar casos emblemáticos de pessoas que atingiram a perfeição logo com a primeira película e nunca mais chegaram perto, ou talvez tenham até chegado, mas não tenham sido reconhecidos por esse feito.

Primeiramente, poderíamos falar de um cara meio desconhecido: Michael Cimino. Alguém sabe quem é ele? Antes de mais nada, devo contar uma rápida história. Anos atrás, eu e meu pai assistimos, pelo menos começamos a assistir, um filme intitulado O Siciliano, 1987, que contava a história de um mafioso italiano interpretado pelo eterno Highlander Christopher Lambert. Bem, o filme era muito ruim. Não consegui assistir ele todo.

Voltando para Cimino, o primeiro filme de sua carreira foi O último golpe, 1974, que tinha Jeff Bridges e Clint Eastwood no elenco. A película foi bem recebida e arrecadou bem mais do que custou. Ele começou bem.

Todavia, o que viria marcar pra valer a sua carreira seria o ótimo filme “Vietnã” de 1978 intitulado, no Brasil, O franco-atirador. Uma “clássica” obra-prima. Com De Niro, Streep e Christopher Walken como atores principais, a obra foi imortalizada pela crítica e bilheteria e, como não poderia deixar de ser, levou o Oscar de Melhor Filme e Diretor em 78.  A película foi a primeira a falar  sobre a Guerra do Vietnã  de uma forma crítica. Ainda por cima, o tema do filme não era a guerra em si, mas os efeitos que ela causa na vida de três amigo (De Niro, Walken e John Savage). Em 1996, foi selecionado para preservação no Registro Nacional de Cinema da biblioteca do Congresso norte-americano em vista da sua importância cultural e histórica.

É… o sucesso estacou aqui. Aí foi que a coisa começou a desandar. Mas desandou mesmo! Por causa do seu sucesso estrondoso, a United Artists deu passe-livre para Cimino filmar o faroeste O portal do paraíso, 1980. O filme foi um dos mais caros da história (45 milhões de dólares, mais de 100 milhões nos dias atuais) e arrecadou somente 1 milhão. Fracasso? Não tenha dúvida! Mas não termina por aí. Por causa do prejuízo, a United Artists foi levada a falência e terminou sendo comprada pela MGM. Como se não bastasse, o filme é colocado como a película que “escanteou” o gênero Western, somente recuperado, cerca de uma década depois, pelos Imperdoáveis de Eastwood.

Originalmente, o filme tinha cerca de 3 horas e 45 minutos. Todavia, extremamente assustada pela crítica, a United cortou quase 1 hora e meia. Se a história já era meio incoerente, ficou muito mais depois disso! Como qualquer “porcaria” americana cinematográfica que se preze, o filme foi a “estrela” do Framboesa de Ouro de 1980.

A triste história desse diretor nova-iorquino não para por essas bandas. Não, não não, temos que dizer que todos os seus outros filmes foram fracassos. O ano do dragão, 1985, foi também uma das “estrelas” do Framboesa de Ouro de 1985; O Siciliano, 1987, acho que não preciso falar; Desperate Hours, 1990, mal chegou a ser “tocado” pela crítica; e Sunchaser, 1996, seu último filme como diretor, custou 31 milhões e arrecadou somente 30 mil nos Estados Unidos. Fracasso? (desculpe indagar novamente) Resposta: Nossa! Tudo, em termos de direção, depois de 1978, foi um fracasso para Cimino.

Sem dúvida, o caso de Cimino é o mais “triste”.  Contudo não é o único emblemático, ou o mais emblemático. Isso porque o melhor exemplo de gênio precoce da direção cinematográfica é, o dessa vez nada desconhecido, Orson Welles.

Aos 25 anos de idade, e em seu primeiro trabalho como diretor, Welles fez “o maior filme de todos os tempos”, segundo o Instituto Americano de Cinema. Aí meu caro, fica um pouquinho difícil superar. Welles… bem, Welles, ele foi nada menos que o protagonista, diretor, produtor e co-roteirista. Ele foi quase que literalmente “o responsável” pela película. Quase, porque como se não fosse suficiente a ótima atuação do próprio diretor, Cidadão Kane teve um papel inovador em questões técnicas como sonoplastia, iluminação e filmagem com focos profundos. Em grande parte, isso se deve ao seu diretor de fotografia, Gregg Toland.

Segundo a crítica, Welles teve uma boa carreira como diretor depois de seu primeiro e também mais que grandioso filme. Entretanto, é óbvio que nunca chegou a eclipsar o que fez em 1941.

Outro caso de ter produzido uma obra-prima de primeira, certamente, é Lewis Milestone. Na verdade, Lev Milstein, um garoto judeu que nasceu em 1895 na região em que encontra-se hoje a Moldova (lá perto da Romênia, que fica…….. aí, bem, você tem que saber). Um de seus primeiros filmes, Sem novidades no front, 1930, foi  a primeira obra anti-bélico da história. Na minha opinião, é filme incrível, majestoso, magnífico, resumidamente, um dos meus preferidos. Como Welles, Milestone também produziu bons filmes depois de 1930. Contudo, em nenhum outro ele foi agraciado com o Oscar de Melhor Filme e Diretor, em nenhum outro filme seu existiram seqüências, como as cenas de batalha de Sem novidades no front, que foram tão bem realizadas, e nenhum outro filme, da sua autoria, remete ao seu nome como a sua obra-prima pacifista.

Existem casos que se aplicam menos ao que estamos falando. Por isso, podem acarretar uma discussão. Primeiramente, gostaria de colocar o Sidney Lumet. Acredito que 12 homens e uma sentença, 1957, é o seu melhor filme. Acho difícil alguém duvidar disso. Todavia, ao longo do desenrolar da sua carreira, podemos citar bons trabalhos como Serpico, 1973, Um dia de cão, 1975, esses com Al Pacino, o premiado Rede de Intrigas, 1976; e O Veredicto, 1982, com Paul Newman. As outras obras não chegam a passar o primeiro filme, mesmo assim, Lumet não atingiu patamares tão extremos quanto Cimino e Welles.

Talvez eu também pudesse colocar aqui o Ken Loach. Ele fez o comovente Kes, 1969, um ótimo filme que, segundo o Instituto de Cinema Britânico, é o sétimo melhor filme  já realizado na ilha da rainha, superando até “rio Kwai” de Sir Lean. Acontece que, sem financiamento, e tendo pouco sucesso quando conseguia, Loach desapareceu. Somente voltou fortemente, com seus filmes em defesa dos oprimidos, lá para os anos 90, com obras como Riff-Raff, 1990; Chuva de pedras, 1993, o muito bom Terra e liberdade, 1995; e Meu nome é Joe, 1998. Em 2006, venho o excelente Ventos da liberdade, vencedor da Palma de Cannes e, em 2008, venho A procura de Eric, muito bom também, embora eu tenha dormido nos primeiros 20 minutos.

Teve outros diretores que fizeram sucesso logo de primeira, a exemplo de Godard e Huston, mas acho que eles dificilmente se aplicam ao “nunca mais”, ou chegam a ser extremos, ou mesmo emblemáticos, em termos de sucesso.